31 de julho. Ah! esta data lhe traz recordações, amargas? Questionou a si mesma, ao acordar, após ter tomado seu banho matinal,  vestindo sua roupa para iniciar mais um dia.
Não. Respondeu. Não, amargas não, mas doloridas. Muito sofridas, afinal fora neste dia que ela dera um  passo importante em sua vida, passo este que alterara o rumo de sua história.
Pensando na data sentou-se em sua cama, estática ficou. 
Como um "flash back" bem  à sua frente, cenas de 33 anos atrás:   

1971. Mais precisamente: 31 de julho de 1971: - Era só uma menina de 20 anos, com responsabilidades : casa para cuidar; marido e um filhinho de 6 meses. 
O dia anterior fora pesado, havia tomado uma madura decisão, tendo como "gota d'água", uma discussão  com severas e graves acusações mútuas entre ela e o marido. 
Há muito já vinha amadurecendo tal idéia na cabeça, mas naquele exato momento percebeu que se assim continuasse, se mantivesse o casamento, o ambiente seria péssimo para o desenvolvimento e a criação  de seu filhinho, queria-o um ser humano estruturado psíquica e fisicamente, seu lar  prescindia de condições básicas: amor e harmonia, além da falta de alimentos  básicos e saudáveis para o corpo físico, o que estava levando-o a um estado de pré-inanição (passara a noite toda com febre alta - chorando muito).

   Neste instante, as lágrimas começaram a escorrer fortemente pelo seu rosto, bonito ainda, não mais com o viço da juventude, mas  sereno e tranqüilo de alguém que conseguiu superar estas e outras,  e ao final poder dizer a si mesma: "graças a Deus, eu venci mais uma batalha da vida".

Esta menina ainda, que deixara sua cidade natal, grávida de 3 meses, para seguir o marido que resolvera trabalhar em Curitiba, longe da família (porque assim poderemos ficar livres da influência de todos os familiares e viver a nossa vida, dizia ele). Feliz da vida, porque o amava mais que a si própria.  Esta menina seguiu seu marido, tudo fez para que seu casamento desse certo,  mas,  passados 2 anos, lá estava ela voltando para a casa paterna, no Aeroporto com seu filhinho de 6 meses, com febre de quase 40° ao colo, à espera do avião que a traria de volta à sua tão querida cidade de origem. Era o dia 31 de julho de 1971


   Estática, esta mulher madura, de olhos fixos no nada, aos prantos, relembrava, como um "flash back", as cenas deste 31 de julho de 33 anos atrás que jamais cairão no esquecimento.

Aeroporto lotado. Quando pensava que ia embarcar de volta pro aconchego de sua cidade natal, de seus familiares, surgem policiais armados, delegado de polícia, o ainda seu marido, o seu cunhado, todos para impedir que viajasse (e o pior é que conseguem).  
Alegam que está raptando o filho, que não pode levá-lo embora. Desesperada, a menina-mulher revela que tem um advogado, que precisa entrar em contato com ele. 
Não lhe permitem. 
Sua sorte, e graças a Deus esta menina a vida inteira foi protegida por Deus e rodeada de anjos, é que está acompanhada de uma vizinha, e esta vizinha é a esposa do seu advogado. A vizinha providencia para que o advogado venha socorrê-la. 
Conseguem esclarecer o caso. Consegue o advogado explicar que tudo foi feito legalmente. 
Liberada, suspira aliviada. 
Entretanto, o avião de carreira que a levaria de volta para o seio de sua família, já havia partido.

   Mais uma vez, a mulher chora ao relembrar todas estas cenas.
- Meu Deus, que dia longo foi este! Quanta aflição!

As pessoas amigas  tratam de escondê-la na casa da irmã do advogado. 
Ela telefona, aos prantos para seu pai.
A família, toda se mobiliza.
Seu pai aluga um avião. Chama um primo que é militar.
E, assim é que às 20:30 da noite consegue deixar Curitiba, escoltada, por oficiais militares armados e fardados.
A viagem é feita num clima tranqüilo, porém ela está exausta, seu filho doente chorando.
Quando o avião chega ao aeroporto, as únicas almas vivas que lá se encontram são os familiares dela, todos: pais, irmãos, tios, avós, chorando, emocionados, um misto de felicidade e tristeza pairando no ar, mas com certeza aliviados por saberem todos juntos, solidários, e preparados para enfrentar as "batalhas" que ainda haveriam de suceder.

 De volta a 2003, o pranto rola no rosto da mulher madura sem parar.
Afinal, 31 de julho já passou.
Já é 01 de agosto, e "la nave va", como nestes 33 anos ela percorreu caminhos às vezes alguns "nunca d'antes navegados", e venceu. 
Esta história não é ficção, é um "flash back" de um dia da minha própria vida,  e só posso agradecer a Deus por ter chegado até aqui, por ter vencido por ter conquistado o que conquistei, e por tudo que ainda vencerei e conquistarei, com certeza.

A_Ninh@ Lopes de Sá
01.08.2003

Música Incidental: "Because" - The Beatles - Midi do site Baixou Tuco: http://geocities.yahoo.com.br/baixotu/musica.html

 

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