Havia um poema pelas ruas, por entre edifícios. Mas como eu diria isto para aquelas pessoas que viviam com pressa? Guardei aquela impressão estética comigo, mesmo que tivesse de ser para sempre.

Procurei esquecer o incidente abrindo um jornal encharcado de manchetes; ainda assim voltei a prever aquele poema – reapareceu-me absoluto –, porém nenhuma daquelas palavras a serviço da imprensa poderia compô-lo... Guardei-o mais uma vez com paciência e um pouco de saudade dentro de meu leve susto.

Aquele mesmo poema – sempre invisível em versos mas nítido em movimento – insistia em suas tão claras quanto breves aparições, como se fosse o fantasma de um texto outrora famoso naquele lugar.

Da vez seguinte, ressurgiu no meio das notícias do rádio, no meio das músicas... Eu quse o ouvia, mas os artistas e os disque-jóqueis não queriam recitá-lo, não queriam desgravar suas breguices ou vanguardices... e assumi-lo. Pouco a pouco, aqueles versos voltaram ao ritmo do mistério das artes.

Guardei-o dessa vez no silêncio, onde o vazio de sons rouba das coisas os seus nomes; onde a ausência de ruídos simula a própria ausência, enganando os ouvidos que não costumam escutar o vácuo do que ainda vai ser dito.

Chorei um pouco... depois de cantar alguma coisa de Paul Simon... talvez "The Sound of Silence"...

De repente, eis que me encontro novamente diante daquele espectro literário, outra vez dançando suas metáforas e aliterações, combinando o ritmo de meus sentidos ao batuque da bateria de uma escola de samba.

No entanto, imerso em tamanho barulho, devo tê-lo confundido com algum atropelamento, tiroteio urbano ou discurso de político desocupado... Lá se foi ele levando meus olhos em suas cores e confundindo-me, impiedoso, ao confundir-se com a rotação da Terra...

Ah, aquele poema! Que pena! Mais uma vez, rima por rima, aquelas estrofes recolheram-se compulsivamente ao susto de um amontoado de palavras sem sentido deixando-se consumir pela sucata semântica do caos urbano.

O poema que havia no ar errou por si mesmo, enveredou por seus próprios labirintos. Ele mesmo enterrou seus ossos, e apenas sua alma gramatical retornou à origem, até que um dia a vida torne-se menos prática, não tão misantrópica, nem tão política, e se manifeste mais estética, quiçá mais teológica, assim como "a princípio [e por princípio] foi o Verbo"; e, como todo Verbo, terá que voltar a ser um dia um poema claro, visível e mágico!

 

  Música Incidental: "Nesta Rua Tem Um Bosque" - Villa Lobos - Desconheço o autor da digitalização desta música, se você souber por favor mande-me um E-mail, para que os créditos devidos lhe sejam atribuídos.